Com roteiros que desafiam o politicamente correto, trio faz sucesso na internet e diz que sua missão é usar o riso para fazer a população pensar


Os vídeos de humor político mais corajosos da internet brasileira estão sendo produzidos na cidade de Itajaí, município com 220 mil habitantes no litoral catarinense. As peças, que desafiam esses tempos de cancelamento e vigilância do Judiciário, fazem parte do arsenal do Canal Hipócritas. Já são 1,3 milhão de seguidores no YouTube e quase 2 milhões de fãs, somadas as contas do Instagram, Facebook e Twitter. Além, é claro, de ser uma verdadeira febre nos mais diversos grupos de WhatsApp.

O Hipócritas foi criado em 2014 por Paulo Vitor Souza. Até o início do ano, Paulo trabalhava como recepcionista noturno do Centro Integrado de Saúde de Itajaí (CIS), o pronto-socorro da cidade. A ele, juntaram-se três anos depois Augusto Pacheco, motorista de Uber, e o empresário Bismark Fabio Fugazza, dono de uma empresa que faz projetos com contêineres — como escritórios e quitinetes. O nome Bismark é uma homenagem ao ex-camisa 10 do Vasco da Gama nos anos 1990.

Às vésperas da eleição que levaria Jair Bolsonaro à Presidência da República, o trio gravou o vídeo Bolsomito, uma paródia do hit latino da época Despacito. O protagonista é Paulo Souza, o único do grupo que tem formação de ator e é o responsável por escrever os roteiros das peças. Filmada na Praia de Barra Velha (SC), com custo baixíssimo (Bismarck pagava R$ 300 ao câmera e assistentes), a postagem explodiu nas redes de apoio do então candidato do PSL.

A partir daí, o Hipócritas ganhou vida própria no YouTube, fez apresentações de teatro em algumas cidades (os registros estão disponíveis on-line) antes da pandemia e não parou mais de crescer. A monetização dos vídeos e os planos de assinatura entre R$ 17 e R$ 50 mensais, com acesso a conteúdo exclusivo no site, permitiram que ao menos Paulo e Augusto hoje vivam somente do canal. Bismark mantém seus negócios empresariais. Uma das ofertas para os assinantes é o acesso a conteúdos que fizeram enorme sucesso, mas foram removidos pelo YouTube. Nessa lista de vídeos excluídos, por exemplo, consta parte da série que ironiza o que seria a figura da polícia politicamente correta para a mídia e os movimentos de direitos humanos.

A visibilidade fez do canal um dos alvos do exército de censores que atuam em agências de checagens de publicações, no consórcio da imprensa tradicional ou espalhados em perfis nas redes sociais. A saída encontrada pelo Hipócritas foi tentar criar sua própria plataforma de publicações, que será lançada em outubro.

Hipocrisias cotidianas

Foi nesse clima de caça às bruxas contra a direita no Brasil que o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou prisões e bloqueios de repasses pelas chamadas big techs de recursos obtidos com o alcance das publicações. Foram intimidados pelos inquéritos contra fake news, milícias digitais e atos antidemocráticos canais como o Te Atualizei, de Bárbara Destefani, Terça Livre, Brasil Paralelo, Jornal da Cidade Online, entre outros. O Hipócritas escapou incólume até agora de punições. Mas o trio não tem medo de produzir material contra o temido ministro Alexandre de Moraes?

“É claro que temos medo. Muito medo”, afirmou Augusto Pacheco. “Não sabemos se e quando a corda vai estourar do nosso lado. Mas pensamos que o humor ajuda a criar senso crítico nas pessoas, ajuda a fazê-las pensar. Não sei se somos loucos ou ingênuos. Mas fazemos porque acreditamos no que a gente fala. O Brasil está indo para o buraco por causa do cerceamento de liberdade pelo STF.”

“O Brasil está indo para o buraco por causa do cerceamento de liberdade pelo STF”

Augusto lembra que o projeto nasceu da tentativa de falar sobre “hipocrisias cotidianas”, mas ficou impossível desviar dos temas de Brasília. “A partir do momento que precisamos discutir previamente se é permitido ou não falar sobre isso ou aquilo, já estamos num processo de censura. Muita gente está sentindo isso na pele. É algo que começou em 2018, mas só atingia os ‘menores’. Porém, agora as coisas começaram a acontecer com gente maior.”

Mas, afinal, o Hipócritas é um trio bolsonarista? “Não somos bolsonaristas, mas achamos que o Bolsonaro é necessário. A reeleição, se possível com voto impresso, é a chave para tentar mudar”, diz Augusto Pacheco. “Hoje, o que a gente faz não é mais pela gente, mas pelos filhos, pelas próximas gerações. Se não sanar agora, só tende a piorar.”

Além da política in natura, o grupo ainda bateu de frente com temas como feminismo e questões de gênero. Tripudiou sobre a imprensa tradicional e suas personalidades da TV, youtubers populares e os gurus da bolha formadora de opinião que se diz intelectual e… “talvez, por causa do ‘genocida’ que governa o país, até meio de esquerda”. Fez paródias com temas sensíveis como a palavra que se tornou proibida na mídia (cloroquina) e ridicularizou o movimento #EleNão. Expôs a desconfiança em institutos de pesquisa que descobrem gente que não existe da porta de casa para fora.

Como se blindar dessa escalada de censura e da hipocrisia reinante? “A única forma de se proteger é o povo permanecer nas ruas”, diz Augusto Pacheco. “É surgirem outros canais, outros ‘Hipócritas’.” Quando conversou com Oeste, Augusto usava uma camiseta estampada com a bandeira brasileira e uma frase: “Nós somos a maioria”.


Silvio Navarro

Revista Oeste

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